Como terminar um livro se você escreve há anos e o que isso diz sobre o processo.
- Je Fachini

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Qual é a mentira que você conta para si mesma há anos?
A minha é: Este ano eu vou terminar de escrever meu livro.
Eu não digo isso achando que ela é uma mentira. Mas é. Porque a verdade é: eu nunca faço da escrita uma prioridade. Nos últimos anos, eu priorizei o meu trabalho CLT, priorizei os meus pais, priorizei até as séries da Netflix. Tudo foi mais importante do que o meu sonho de escrever e publicar um livro. Eu acho que estou acumulando promessas não cumpridas.
Você escreve há anos… mas nunca terminou um livro?
A escrita começou em um lugar de dor para mim; ela era meu refúgio, um lugar de descanso, de desabafo. Mas agora ela é um lugar de ansiedade, de cobrança, de lembrança do que prometi a mim mesma e não cumpri. Você já se sentiu assim, com vontade de desistir desse sonho?
Eu também. E todos os dias me questiono: Isso ainda é para mim?. Talvez fosse para Jessica adolescente, que não sabia lidar bem com suas emoções. Ou talvez fosse para Jessica jovem que era determinada, sem preocupações reais, sonhadora, amante dos livros. Mas para essa Jessica, adulta? Cheia de compromissos e responsabilidades?
Como terminar um livro?
Você deve saber que escrever não é só sentar a bunda na cadeira e despejar tudo numa página em branco. Muito sobre ser escritora tem a ver com o fator biológico do nosso cérebro, afinal…
Nosso cérebro ama ideias, mas não processos longos.
Criar uma história, idealizar um enredo, imaginar seu livro pronto nas prateleiras dizem ao seu cérebro que metade do trabalho já foi feito. Mas, na real, é que o processo é bem diferente. Sentar em frente ao computador após um longo dia de trabalho, acordar mais cedo, deixar de sair com os amigos, ou lidar com milhões de demandas diárias e ainda escrever, não faz sentido para o cérebro.
Ele gosta de recompensas (de preferência, imediatas), e o seu livro não é publicado de um dia para o outro. Escrever exige tomadas de decisão constantes, estimula a memória, pede organização e esforço. Só que nosso córtex pré-frontal, ativado durante a escrita, também é aquele que se cansa rápido e perde eficiência sob estresse.
Escrever é impossível se você tiver um trabalho CLT?
Então não é à toa que dedicar 8h a um trabalho e ainda ter energia para escrever parece impossível. E é assim que eu me sinto na maioria dos dias, tão cansada. A palavra é “impossível” acaba entrando no meu vocabulário, mais do que eu gostaria.
Escrever um livro não é impossível para a maioria das pessoas. E é fácil comparar-se com autores que publicam dois livros por ano, que escrevem 2.000 palavras por dia. É incrivelmente fácil olhar para o escritor que escreve em tempo integral. Achamos tantas desculpas para justificar o porquê ainda não terminamos nosso livro. Eu não sei você, mas eu estou cansada de dar desculpas. De permitir que minhas emoções controlem meu sonho de ser uma escritora publicada.
Como terminar um livro tendo um trabalho CLT vai ser infinitamente mais difícil, mas não é impossível. Eu não vou te dar dicas de como fazer, porque só você sabe como. Algumas escrevem em poucos minutos que têm no ônibus, outras ditam enquanto lavam a louça e um app escreve por elas, não importa. Cada uma tem seu processo.
Mas escrever exige um sistema. Um que funcione para você! Vamos esquecer por um minuto tudo o que sabemos sobre escrita, sobre livros e sobre publicação. Eu tenho tentado me visualizar: eu e meu computador, sentada no meu lugar de escrita favorito, com o barulhinho das teclas e minhas ideias borbulhando.
Em nome da minha sanidade, eu não tenho contado palavras, não tenho estipulado tempo de sprint. Eu tenho me imaginado escrevendo, gerando inspiração para escrever. Então, eu sento, quando é possível, e escrevo. Quando me distraio dou permissão ao meu cérebro, mas volto quando vejo que estou me perdendo. Quando não gosto do que escrevo, continuo mesmo assim. Não volto para editar, volto para conferir informações e as anoto sempre que possível em outro documento, para não ser tentada a editar. Tudo isso tem me feito aparecer para escrever… Mas ainda preciso lidar com o…

Meu maior medo de ser escritora
Como disse anteriormente, escrever veio de um lugar de dor, então facilmente coloco tudo de mim na escrita. E isso é bom em partes, pois “A linguagem constrói identidade”. Para nós escritoras, o que escrevemos é parte de quem somos. Portanto, alimentamos a crença distorcida de que se escrevemos mal, somos maus. Se escrevemos bem, somos bons.
Quando escrevemos, o nosso cérebro entende que isso irá nos expor, pode nos definir, pode gerar rejeição. Que engraçado, né? Isso é tudo o que eu sinto quando escrevo. Percebi que as minhas histórias são de alguma forma eu. Por isso, eu tenho tantas travas para terminar. As minhas histórias são pessoais demais, são versões de mim.
Eu não sabia, até recentemente, mas eu tenho medo de ser escritora. Tenho medo de escrever mal, de escrever errado, de não construir uma narrativa boa o bastante, das pessoas acharem que todos os meus personagens são iguais, de nunca ser publicada, ou de ser publicada, mas nunca lida. Porém, o meu maior medo é terminar o livro e não ter mais o que escrever. Todo o meu eu ser resumido a um único livro, uma única chance, uma única história.
Eu e você também, precisamos parar de tratar o livro como identidade e tratá-lo como tarefa. Nós precisamos decidir quem seremos quando a vontade acabar. Por exemplo: quando eu estiver cansada, eu escrevo pouco; quando estiver sem ideias, eu escrevo mesmo assim; quando achar que está ruim, eu continuo.
Reduza seu livro até ele caber na sua vida.
Pare de pensar no seu livro publicado, nas livrarias, vendendo horrores. Sonhar é bom, mas para ansiosas, perfeccionistas como eu, é um tiro no pé. Fazer a sua vida caber em um best-seller pode ser mais do que você consegue hoje. Pensar no macro nos paralisa e faz com que o micro se torne irrelevante, fazendo com que nosso cérebro nos sabote. Crie micro tarefas, encontre a sua, não há de outro alguém. Pense em como terminar um livro.
Não escreva quando der tempo. Escreva pensando “não vou terminar meu dia sem tirar alguns minutos para o meu livro”. Não pense que se você não estiver ativamente escrevendo, significa que você não está escrevendo. Todo o tempo de planejamento, pesquisa, referências, leitura de livros também é tempo de escrita. Eu aprendi a aceitar isso.
Uma coisa que tem sido essencial para mim é ter um diário de escrita. Um documento no Google Docs onde coloco a data e escrevo sobre escrever. Quando o bloqueio na história aparece, eu confabulo comigo mesma por páginas e páginas. Reclamo, digo o que me incomoda e testo teorias. Ali falo mal do meu trabalho e também faço elogios.
Quando a gente escreve o que pensa, nossa metacognição é ativada. A metacognição é pensar sobre o pensamento. É a capacidade que você tem de perceber o que está pensando, entender como está pensando, avaliar se esse jeito de pensar está ajudando ou atrapalhando, decidir ajustar o processo. Por isso, o diário (o meu é digital, mas se for físico, melhor ainda) tem sido a minha melhor companhia.

Para seus momentos de insegurança na escrita
Por fim, lembre-se de que você não escreve sozinha. Escrever demanda tempo e paciência e quando ambos te faltarem, você só tem uma pessoa a quem recorrer. Cerque-se de palavras que te façam continuar e não de comparações.
Aqui estão alguns versículos não óbvios para te ajudar em momentos de insegurança:
Josué 1:9
“Seja forte e corajosa…”
Não é ausência de medo. É decisão apesar dele.
2 Coríntios 3:5
“Não que sejamos capazes, por nós mesmos…”
Capacidade não é pré-requisito. Dependência é.
Zacarias 4:10a
“Pois quem despreza o dia dos humildes começos?”
Para quando o texto parece pequeno demais, simples demais, lento demais.
Jó 32:8
“Na verdade, há um espírito no homem, e o sopro do Todo-Poderoso o faz entendido.”
Não é só técnica. Mesmo quando você não sente.
Provérbios 16:3
“Consagre ao Senhor tudo o que você faz, e os seus planos serão bem-sucedidos.”
Consagrar não é garantir resultado. É entregar o processo.
Eclesiastes 11:4
“Quem fica observando o vento não plantará; quem fica olhando para as nuvens não colherá.”
Para os dias em que você espera o cenário ideal para escrever.
Salmos 127:1a
“Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem.”
Você não carrega isso sozinha.
Habacuque 2:3a
“Porque a visão ainda está para cumprir-se no tempo determinado…”
Nem tudo que é verdadeiro é imediato. Texto também amadurece.
Tiago 1:5
“Se algum de vocês tem falta de sabedoria, peça-a a Deus…”
Antes de pedir inspiração, peça clareza. Ela costuma vir mais quieta.
Isaías 55:11
“Assim será a palavra que sair da minha boca…”
Você escreve sementes. Deus cuida do alcance.
Salmos 37:5
“Entrega o teu caminho ao Senhor…”
Entrega também a cena ruim. O capítulo torto. O rascunho.
Salmos 45:1
“O meu coração transborda de boas palavras…”
Mesmo quando não parece transbordar.
Espero que esse texto te ajude!
Sinceramente
Je
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