top of page

Voltar a escrever para a audiência de ninguém

Foto do escritor: Je Fachini
Je Fachini
há 19 horas
5 min de leitura
Caderno aberto e caneta sobre a mesa, com uma flor seca, símbolo de voltar a escrever

Voltar a escrever sem audiência: uma carta de quem quase apagou tudo


Um… dois… três… testando… Tem alguém aí?


Há muitos anos eu não escrevo um post com o intuito de conversar com alguém, então já peço perdão de antemão se meus pensamentos fluírem de forma desordenada e sem filtro. Hoje decidi voltar a escrever como eu, já que os últimos posts que fiz nas redes foram mais para corresponder a um algoritmo ou a uma expectativa de nicho, que eu “escolhi” meio que obrigada, para pertencer.


Recentemente, comecei a relembrar os bons momentos da vida de blogueira. Se você foi blogueira de verdade nos anos 2000, levanta a mão aí. Já contei inúmeras vezes que a minha história com a escrita começou exatamente nesse lugar, e sou muito grata a ele. Eu comecei criando logos e designs, aprendendo HTML para poder personalizar o meu blog no Blogspot.


Abria a página para escrever sem realmente ter alguém para ler aquilo que eu estava escrevendo. Eu escrevia principalmente resenhas, porque a minha vida aos 16 anos era ler. Mas eu também escrevia sobre o que me desse na telha, sobre a série que eu curti, sobre o filme que eu odiei e em uma época o blog teve até um colunista que falava sobre música.


Todo o meu público leitor era orgânico, nada de algoritmos. As pessoas conheciam o que eu escrevia porque eu me dispunha a ler e comentar o que elas escreviam. Era uma relação de troca genuína. O pequeno blogueiro era grande, mesmo tendo números pequenos. Eu mesma me sentia da elite tendo 2 mil seguidores ativos no meu blog.


A vitrine aumentou. Os números aumentaram. A meta é chegar à casa dos milhões. E se você não tem milhões, então você não é relevante. Se você não tem um nicho, você não conversa com “ninguém”. Ser influenciador virou profissão. O YouTube, o Instagram e tantas outras redes chegaram. E os blogs morreram aos poucos.


O meu não. Mudou de plataforma, mudou de layout, mudou de nome, mas ele sempre esteve ali esperando que eu voltasse. Mesmo não postando nada por muito tempo, eu continuei pagando o meu domínio porque eu sabia que, sempre que precisasse, teria para onde voltar. Porém, nesse ano pensei: talvez seja hora de apagar.


Eu sempre tive crises existenciais com a minha escrita, é só você olhar o meu feed e ver quantas vezes já falei sobre isso. Entre no blog e veja quantos posts você pode encontrar sobre a arte de recomeçar. Esse texto que você lê talvez seja mais um… Comecei 2026 até que bem, com muitas ideias, tentando manter o Insta atualizado, mas foi só o ano começar pra valer que as coisas de adulta tomaram conta de novo.


Lá vou eu, mais uma vez, desconectada do que eu estava criando. Frustrada, larguei o Insta como produtora. O perfil @oi.escritora ficou parado. Entrei aqui e acolá quando o medo de estar perdendo algo importante bateu. Vi que coisas lindas aconteceram com algumas colegas, mas nem pra comemorar com elas me fiz presente. Afinal, era mais uma evidência do quanto eu não tinha conseguido chegar a onde elas estavam chegando. Não queria sentir inveja de pessoas com quem eu realmente me importo.


Com o passar dos meses, a pressão para “criar” diminuiu. Eu não estava sentindo falta de criar conteúdo. Isso me assustou, mas também foi um alívio. Pensei: vou deletar as minhas contas, excluir o meu domínio na internet e voltar a viver a minha vidinha. Mas, deixar tudo isso para trás também teria um preço. Eu poderia apagar anos da minha história, de lembranças e pensamentos que eu soltei no mundo? Desistiria do meu sonho de ser escritora?


Eu ainda conseguiria ser uma escritora publicada? Isso doeu.


Tudo o que fiz foi porque eu queria ser escritora: o blog, o canal no YouTube, as bienais, o crachá de imprensa, os convites como blogueira, o recomeço em um novo nicho, o Instagram refeito do zero, as autoras incríveis que se tornaram amigas.


Só que, na ânsia de querer ser, eu esqueci de fazer. Me cansei tanto de escrever posts, roteiros e carrosséis que esqueci de escrever o meu livro. Afinal, se eu queria ser publicada, eu precisava ter uma audiência. E foi aí que tudo perdeu o sentido. Me empenhei mais em construir uma audiência do que em ser escritora. Passei horas pensando, desenhando, estruturando um futuro para uma audiência que só seria “satisfeita” se eu tivesse o meu “produto”.


Que audiência? Passei meses me dedicando, pensando, vendo vídeos, estudando para criar conteúdo que, segundo os experts, alcançaria muita gente. Cadê os meus milhões?


Nas últimas semanas fiquei mais introspectiva e observadora. Vi minhas amigas ouvindo o que eu falava sem piscar. Vi meus superiores me elogiarem por coisas que faço por amor e quase sem nenhum esforço consciente. Voltei a movimentar um Instagram parado há mais de seis meses e com pouquíssimos seguidores e vi pessoas que realmente me acompanham falarem comigo, torcendo pela minha volta. Essas pessoas me ouviam sem precisar de números. Aí a ficha caiu. Não precisa ser tão difícil. Não precisa ser como os experts dizem que tem que ser. Não precisa ter uma audiência.


Me perguntei: e se eu voltar a escrever para ninguém ler? E se a minha audiência for zero? E se for só eu e Deus cocriando?


Entrei no Substack há algum tempo e consumi conteúdo de forma bem discreta, mas foi ali que eu reencontrei a Jessica de 20 anos atrás. Que escrevia coisas sem sentido num blog com template duvidoso, que não se importava com números. Que queria ser escritora, antes de querer ser publicada. Ainda estou me reencontrando, fazendo as pazes com aquela Jessica. Oro a Deus todos os dias para que eu não seja refém dos meus pensamentos e para que eu não perca de vista as coisas que realmente importam.


Agradeço a todos que sempre estiveram comigo nas minhas aventuras blogueirísticas, agradeço a você que está chegando agora. Não tenho nada para prometer, nem a vocês nem a mim, exceto que vou tentar. Pode ser que eu suma sem explicações, pode ser que eu volte como se nada houvesse acontecido. Pode ser que em 30 dias eu termine o meu manuscrito, e pode ser que eu nunca termine nada. O fato de eu poder sentar em frente à tela do computador e conseguir escrever tudo isso aqui sem ter uma crise de pânico eu já me sinto vitoriosa. Ainda estou aprendendo a voltar a escrever sem esperar nada em troca.


Não sei exatamente como terminar esse texto, então ele vai terminar assim. Obrigada por ter lido até aqui as divagações de uma escritora que está se reencontrando na própria escrita e voltando à era dos blogs (hoje mais parecidos com newsletters), onde tudo começou.


Sinceramente

Je

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação

JE FACHINI

ESCRITORA . PROFESSORA . LEITORA

bottom of page