Resenha: Você vai passar por aqui, de Anna Padilha Moura


Você vai passar por aqui foi uma doce surpresa e uma leitura interessante. Tive contato com a escrita da Anna pela primeira vez no livro de estreia dela, Uma janela para o contrário. Desde então, acompanho a autora e a saga para publicar Zoe.
Você vai passar por aqui é um livro que começou na cabeça da Anna em 2020, e ela sempre foi muito aberta sobre as dificuldades em terminar essa história. Por isso, nós, leitores, conhecíamos Zoe, a protagonista, muito antes de o livro existir.
O livro conta a história de Zoe, uma garota de vinte anos que sonha em ser escritora e morre de medo de passar pela vida sendo comum. No início da história, conhecemos essa menina um tanto imatura, cheia de sonhos e disposta a fazer de tudo para conquistar o que quer.
Confesso que, diante de tudo o que eu sabia sobre esse livro, fui pega de surpresa pelo caminho que a Anna escolheu trilhar na construção da história. Na primeira, Zoe corre para chegar aonde sempre quis e não se preocupa com os resultados. Na segunda, a protagonista encontra uma alterativa que a faz enxergar as coisas com mais clareza. Por fim, vem o “aha moment”, em que ela encontra seu caminho de volta para casa.
Acho que todos nós temos um pouco de Zoe, ou muito, como eu. Inúmeras vezes me vi nas atitudes e nos sonhos dela, com a vontade de conquistar sem realmente construir algo. A imaturidade dela é também a minha. O livro carrega a mensagem de que os processos são difíceis e precisam ser vividos, e por isso é muito fácil se identificar com a história.

Anna é brilhante na construção das camadas do enredo: a leitura é leve e reflexiva, divertida e profunda. Amei ver o quanto a família de Zoe esteve presente, chamando-a para a realidade. Gostei também de como as pessoas ao redor da protagonista estiveram ali para ela, mesmo quando ela foi um pouco irracional. O livro não tem um antagonista explícito, a não ser a própria Zoe.
Estou tentando escrever sem dar spoilers demais, mas o livro tem um pouco de tudo: realismo mágico, fantasia, viagem no tempo e uma dose gostosa de brasilidade, ainda que boa parte da história se passe em terras estrangeiras.
O fim do livro é poético e imagético. Como disse antes, fui surpreendida pelas escolhas da autora, não de um modo negativo, mas porque eu, como escritora, teria ido por um caminho completamente diferente.
Zoe descobre que, para conquistar o que se sonha, é preciso passar por processos.
Criamos porque fomos criados, mas nenhuma criação nossa brota “do nada”; ela precisa ser semeada. Às vezes, somos como Zoe, querendo viver a vida de uma vez só e semeando impaciência e teimosia. O livro nos deixa uma reflexão importante: o problema não está em querer grandes coisas ou ter grandes sonhos, e sim em achar que dá para conquistá-los sem viver os processos. Bons contadores de histórias entendem isso.
Sinceramente,
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